Sempre cabe mais um? (04/2002)

Artigo publicado na Revista do Linux edição 28 de abril de 2002, este artigo argumenta que o mercado de sistemas operacionais está saturado e que um novo sistema operacional não tem chances de se estabelecer se não for livre. Não existe competição ao windows no front dos sistemas operacionais comerciais, qualquer sistema operacional que tente surgir estará fadado no máximo ao nicho (BeOS por exemplo) e/ou a morrer (BeOS, por exemplo) ou a ficar eternamente tentando ressurgir calcando-se no saudosismo dos entusiastas (AmigaOS, por exemplo, e quem sabe o BeOS?). Este foi o destaque do texto dado pela redação da revista:

"Não existe lugar no mercado de hoje para novos sistemas operacionais se eles não forem livres"
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Sempre cabe mais um?

A diversidade é muito freqüentemente uma virtude. A diversidade de gostos e opiniões torna conversas interessantes, de fornecedores nos dá a chance de obter o melhor preço no que queremos, a diversidade de programas e sistemas operacionais estimularia a interoperabilidade entre os mesmos, se ela existisse.

A “diversidade” em sistemas operacionais foi reduzida a três ou quatro modelos principais e suas variantes. O que vemos hoje é que ser tecnicamente superior tem pouca influência no sucesso de um novo produto. Idéias e produtos tecnicamente espetaculares são esmagados pela inércia do mercado todos os dias.

Não foi por falta de tentativas que novos sistemas não emplacaram no mercado. Vejam o exemplo do OS/2: muito mais estável e poderoso do que o sistema predominante para PC da época, se arrastou até a morte. Recentemente, assistimos a outro dos sistemas operacionais mais inovadores já desenvolvidos cair por terra, o BeOS.

Criado para ser um sistema operacional voltado à multimídia, o BeOS tinha um journaled file system muito eficiente, compatibilidade com POSIX, design orientado a objetos, arquitetura baseada em microkernel, privilegiando aplicações de Tempo Real, e um tempo de latência de I/O que deixava o Windows e o Linux na poeira (ao menos o kernel Linux oficial, sem modificações para Real Time). Tempo de latência é o tempo entre um dispositivo produzir um bloco de dados e gerar uma interrupção, e o kernel disponibilizar este bloco de dados para uma aplicação.

O design e potencial do BeOS atraíram a atenção de uma grande comunidade de usuários que desenvolveu e portou softwares como o servidor Apache, a shell bash e tudo o mais para o BeOS. Após alguns anos e várias mudanças de estratégia, a empresa que o desenvolveu, a Be Incorporated, acabou por ser Incorporada (desculpem o trocadilho) pela Palm.

A Palm declarou publicamente não ter interesse em licenciar nenhuma tecnologia da Be que não fossem aquelas aproveitadas em seus próprios produtos, deixando toda uma comunidade órfã. Mais uma vez, a excelência técnica não foi suficiente para sustentar um produto no mercado. Hoje o que resta da Be é uma página web com esclarecimentos a seus investidores.

Voltando ao assunto desta revista, o kernel Linux unido ao projeto GNU (também reconhecidos pela excelência técnica) gerou o único exemplo de sistema operacional bem sucedido no mercado dos últimos 20 anos que não saiu de dentro dos laboratórios da Microsoft. O segredo do sucesso do GNU/Linux é o mesmo do Apache, que é o mesmo do PostgreSQL etc. É o fato de poder ser utilizado livremente. A liberdade é também a garantia de que ele não desaparecerá do mercado, como o BeOS, como o OS/2...

Pode ser chocante para alguns, mas a verdade é que não existe lugar no mercado de hoje para novos sistemas operacionais se eles não forem livres.

Proprietário por proprietário, o mercado tende a sempre escolher quem já está estabelecido. Não fosse livre, quem escolheria “Linux” se já havia o SCO ou o Solaris x86? Hoje o quadro é completamente diferente e não foi somente pela excelência técnica que o Linux chegou onde está.

Já a comunidade que se formou ao redor do BeOS não se desfez tão facilmente quanto a Be Incorporated. Ao contrário, ela está desenvolvendo um clone livre do BeOS segundo as especificações do sistema original. O Open BeOS ou OBOS, como é mais conhecido começa a surgir, contando com mais desenvolvedores do que a Be Incorporated chegou a contratar em seu auge.

Quando, e se, o OBOS for concluído, quem sabe obtenha o sucesso que seu inspirador merecia.

Cenas dos próximos capítulos em open-beos.sourceforge.net/.

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