United Business (08/2002)

O United Linux foi uma tentativa de união entre empresas menores (no panorama mundial, diga-se de passagem) para se criar uma marca forte, com capacidade para se tornar padrão de mercado, usando um modelo de licenciamento muito parecido com aquele utilizado no mundo dos grandes servidores proprietários corporativos. Fez muito barulho, mas pouco estrago.

O site ainda existe, anuncia que os produtos serão suportados até o fim do ciclo de vida da versão 1.0, enfim... morreu, principalmente quando a Caldera, o menos expressivo e mais "corporativo" (na pior interpretação possível do termo) começou a dizer que o kernel Linux era sua propriedade, o resto todo mundo conhece.

Eu gostaria de ter sido mais explícito neste artigo, mas a Conectiva, dona da Revista do Linux era uma das participantes do Consórcio. Não me senti à vontade para ser tão agressivo quanto gostaria, apesar de ter carta branca pra escrever o que quisesse e nunca ter sofrido qualquer espécie de manipulação ou censura por parte dos editores da revista.

Continuo achando que o United Linux até poderia ter tido sucesso corporativo. Que se culpe a Caldera por tê-lo criado e matado (mas principalmente por ter criado).

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Surpresa recente promovida por quatro das principais distribuidoras comerciais de sistemas GNU/Linux, o UnitedLinux veio, ao menos por enquanto, trazer mais perguntas do que explicações.

Antes de tudo, é interessante notar algumas coisas:

1 O UnitedLinux é um padrão proposto apenas por empresas. Distribuições como Debian, Slackware ou Stampede não foram ouvidas nem convidadas a participar (o foco, afinal, é outro).

2 Todas estas empresas produzem distribuições derivadas da Red Hat, ou descrevendo de maneira igualmente simplificada, usam rpm como gerenciador de pacotes.

3 Todas as empresas fundadoras são líderes locais na distribuição e suporte comercial de software livre, com pouca ou nenhuma sobreposição de mercados.

A forma com que o software livre é criado visando desenvolvedores e usuários finais; este foco passa por cima de várias práticas comuns das empresas tradicionais de software (ainda bem!).

Quando um grupo que produz uma biblioteca libera uma nova versão, muitas vezes ela traz novas funções, que serão aproveitadas nas novas versões dos programas que as utilizam. Portanto, versões novas destes programas podem não funcionar com uma versão mais antiga da biblioteca. Por isso, na maioria das vezes, instalar um pacote da nova SuSE no seu Conectiva não é simples.

Esse “excesso de liberdade” nos sistemas “comerciais” de GNU/Linux faz com que as empresas ditas “tradicionais” de software vejam dificuldade em criar versões de seus produtos proprietários para GNU/Linux, pois serão necessárias versões especiais, certificação e canais de suporte diferentes para cada uma das distribuições suportadas, mesmo que todas usem rpm como gerenciador de pacotes.

Criando uma distribuição com uma base rígida, os fabricantes de software proprietário serão incentivados a certificar seus produtos e entregar binários que venham a funcionar no UnitedLinux, não importa de qual distribuidor você o obtenha.

Uma das desvantagens é que isso diminui a necessidade de disponibilização de especificações de hardware, se todos passarem a fornecer drivers binários e certificá-los para “UnitedLinux”.

Outra questão interessante é que o UnitedLinux traz um modelo de negócios que explora uma situação limite da GPL. Não existirá uma distribuição binária pública, apenas o código fonte estará disponível, os executáveis deverão ser obtidos de um distribuidor. Junto, você adquirirá suporte e serviços para aqueles binários, para um servidor, durante um período determinado.

Isso traz programas antes completamente livres mais perto do modelo comercial “tradicional” de software, e, de certa forma, ao novo licenciamento da Microsoft, em que você “aluga” os binários por um tempo determinado. A diferença é que, no caso da Microsoft, se você parar de pagar terá que apagar seus programas. No caso da UnitedLinux, você (ao que parece) passará apenas a usar um sistema não suportado pelo fabricante.

O UnitedLinux é uma maneira de as distribuidoras de software livre agradarem as empresas “tradicionais” (tanto fornecedores, quanto consumidores) ao jogar como elas gostam, tanto que, ao que parece, nenhum dos participantes irá abandonar sua distribuição tradicional, menos rígida e com sua carga de personalidade própria que atrai seus usuários “domésticos”.

O UnitedLinux tem grandes chances de ser um sucesso comercial. Eu preferiria ver mais empresas respeitando o Software Livre e se adaptando à nossa filosofia do que o contrário, mas se isso nos serve de consolo, ficará mais fácil explicar as diferenças entre “open source” e “software livre”:, UnitedLinux é nitidamente uma iniciativa “open source”, que é o que as empresas “tradicionais” aceitam com mais naturalidade.

UnitedLinux é nitidamente uma iniciativa “open source”

Eduardo Maçan
macan arroba debian.org

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